No primeiro bimestre de 2026, o INEP registrou taxa média de preenchimento de vagas docentes de 94% na educação básica pública do Norte. O número parece confortável — até se entrar na escola.

Em dez municípios visitados pelo Trilho no Pará e no Amazonas, a realidade escolar inclui turmas sem professor fixo por semanas, aulas repostas com vídeo gravado, coordenadores que assumem sala por falta de substituto e contratos temporários que se renovam no limite da legalidade.

Como levantamos

Entre janeiro e abril de 2026, consultamos 10 secretarias municipais de educação, cruzamos dados do Censo Escolar 2025 e fizemos 38 entrevistas — diretores, professores, pais e dois secretários que aceitaram falar sob reserva.

Não se trata de um censo estatístico: é um retrato qualitativo. Mas os padrões se repetem com frequência suficiente para indicar que o problema não é exceção de um ou dois prefeitos desatentos.

Dez municípios

Em Mojuí dos Campos (PA), três escolas rurais ficaram sem professor de matemática entre fevereiro e março. A solução foi agrupar turmas do 6º e 7º ano em um único turno, com aula dada por um professor de geografia "que entende de conta".

Em Coari (AM), o concurso público de 2024 aprovou 42 candidatos. Só 18 tomaram posse. Os demais recusaram por salário — R$ 3.200 na época — e pela distância entre a sede e as escolas ribeirinhas onde seriam lotados.

Em Parintins, a rede terceirizou parte da reposição para uma cooperativa de professores. Os contratos duram 90 dias, renováveis. Quem aceita diz que é "melhor que nada"; quem recusa aponta falta de plano de carreira e instabilidade.

"A criança pergunta quando vem o professor de português. Eu não tenho data para dar." — diretora de escola em Itaituba

Aulas por WhatsApp

O improviso ganhou formato. Em cinco dos dez municípios, diretores relataram uso de grupos de WhatsApp para enviar atividades — não como complemento pedagógico, mas como substituto de aula presencial quando não há professor.

Pais de alunos do 4º ano em uma escola de Santarém disseram que os filhos passaram quinze dias sem contato com docente de língua portuguesa. As tarefas chegavam em PDF no celular da mãe, que não sabe ler com fluência.

O MEC, consultado, reiterou que "a reposição de aulas é dever das redes municipais e estaduais" e citou programas federais de formação continuada. Nenhum deles, nas entrevistas de campo, foi mencionado espontaneamente por gestores como solução imediata.

O que as secretarias dizem

As respostas formais variam. Algumas secretarias enviaram planilhas com percentual de vagas preenchidas acima de 97%. Outras admitiram "dificuldade de atração" sem detalhar números por disciplina.

Um padrão emerge: a carência é pior em disciplinas de base (matemática, português, ciências) e em localidades afastadas. Concurso público resolve parte do quadro, mas demora — e o candidato aprovado hoje pode só entrar em sala no ano seguinte.

Professores ouvidos pedem algo menos espetacular do que reforma constitucional: moradia para quem aceita escola ribeirinha, transporte regular, e concurso com prova de título que valorize quem fica, não só quem passa.

O Trilho continua o levantamento e abrirá canal para relatos de professores e famílias em [email protected].